Uma casa limpa

Vovó sempre foi de longe a pessoa mais organizada e com senso de limpeza que conheço. Nessa parte, eu herdei isso dela. Quando abro seu guarda-roupa e vejo a organização dos batons e dos perfumes eu penso ali ser o meu guarda-roupa; ao abrir o armário e ver os copos penso que eu poderia tê-los organizado assim. Nunca vi roupas mais alvas do que as que vovó lava. Hoje, mesmo com a idade já bem avançada - praticamente cumprindo 75% do século de vida, vovó ainda faz essas coisas. 
Não estive lá quando vovó e vovô se separaram, mas eu sempre soube que vovó ama vovô. A aliança na mão esquerda que ela nunca tirou e que agora já não sai mais é o sinal mais nítido de que Rita sempre amou Manoel. Às vezes eu penso que talvez vovó tenha se dedicado mais ainda à limpeza da casa depois que vovô se foi. Aquela antiga e grande casa era sempre impecavelmente limpa, e todos os dias quando eu acordava às 9h o fogão à lenha já estava aceso, mesmo depois do fogão elétrico ter chegado. 
Ainda antes de vovô e vovó se separarem os filhos já estavam saindo de casa, mas lhe ficaram alguns netos a quem ela dedicou profunda atenção. Aprendi como vovó que muitas são as maneiras estranhas de se desapegar de uma dor, vejo isso quando olho nos olhos dos meus familiares, quando mamãe com orgulho fala da infância, do passado, dos bisavôs.
O que nunca me saiu da mente foi a brancura dos lençóis estendidos no varal, balançando com o vento; aquela árvore que tinhas espinhos e eu gostava; sair no portão da casa e ver a vovó varrendo a rua, já lá no fim; aquele poço em que meu irmão e eu tiramos fotos quando pequenos; o amor de meu irmão quando éramos crianças; a super antena que ficava atrás da casa da vovó; as apavorantes montanhas, as quais eu julgava abrigar seres alados; os livros que eu ganhei da vizinha da frente naquelas férias; os banhos de bacia que eu sempre inventava quando acordava cedo, a casa limpa...
Hoje quando repenso aquela casa (e os salgadinhos gostosos da venda ao lado), me pergunto se eu queria perpetuar também aquela cultura de limpeza da vovó ou não. Será mesmo que eu vou procurar algum lugar no mundo além de corações para fazer morada e cuidar sempre? Todos nós da família aprendemos com vovó a ter uma vida organizada, cuidar primeiro (e no caso de vovó: sempre) dos afazeres, e a deixar a casa limpa.
Mas, e a vida desperdiçada?
Ainda bem que eu sequei a louça para vir escrever.
Vovó é a moça mais bonita que eu já vi de batom na vida. Tenho certeza que a vida não foi desperdiçada quando vi seu sorriso enrugado outro dia.